terça-feira, 31 de julho de 2007

Capítulo 8

Capítulo 8 – Never in company. Never alone

Elsa Queirós saiu do consultório por volta das quatro e meia. Tinha o resto do dia livre mas decidiu ficar mais um pouco numa tentativa de amenizar as coisas. Percorreu os corredores agitados do departamento das urgências em direcção à pequena sala onde deixou aquele estranho homem sozinho. Sentia-se ansiosa e não sabia o que fazer com ele. Estivera sozinha com Carla apenas alguns minutos, mas foi o suficiente para perceber o seu estado de nervosismo e ignorância no meio de toda aquela história. Não sobrou tempo para lhe falar do sujeito desconhecido que se encontrava com a filha desaparecida, mas tencionava apresentá-los. Elsa sabia que era um caso delicado, por isso fez questão de controlar tudo à sua maneira. Por uns breves momentos pensou estar no local errado a exercer a profissão errada… talvez se saísse melhor num tribunal qualquer a decidir à toa o futuro dos outros. Juíza? Que anedota! Mas sim, o espírito de liderança era um dos seus fortes. Agora tinha de pensar em alguma coisa rapidamente!
Agarrou firmemente a maçaneta e rodou-a. Ficou imediatamente desapontada quando viu a sala vazia. Sentiu-se uma idiota por ter pensado que ele esperaria ali por ela. Passou a mão pela cara e riu-se. Já devia ter percebido que não seria nada fácil.

***
O velho segurou com força o papel em suas mãos enquanto percorria os corredores do 3º piso. Caminhava sem saber para onde se dirigia. As únicas coisas que lhe restavam eram um punhado de má sorte e a ficha de identificação de Joana. Pensou que o facto de a ter roubado dos arquivos do hospital seria mais um motivo para problemas, e se calhar se estivesse ficado quietinho à espera de ordens não o colocaria numa situação pior da que já estava. Mas o que estava a fazer? Percorrer os caminhos do hospital à procura de uma paciente não era das coisas mais sensatas que podia fazer por ele… e por ela. A sua presença com certeza não iria mudar nada. Além de estar a ir contra as regras. Mas se isso o pudesse levar até Joana simplesmente, já compensava por tudo. Já nada poderia piorar a sua situação nesta história infeliz, por isso foi em frente.

***
Sofia devorou o último pedaço do seu oitavo Kit Kat daquela tarde. Era isso que fazia quando estava nervosa, comia chocolates! Também não tinha ideia da quantidade de cafés e garrafas de água que bebera. As moedas já se tinham esgotado, só lhe restava agora conter-se e esperar mais uns minutos por notícias. Carla encontrava-se a falar com o médico responsável por Joana, por isso estavam dentro no consultório há uma eternidade… Só desejava sair a correr procurar a irmã e assegurar-se de que estava bem. Enquanto amarfanhava impacientemente o plástico olhava em volta e esperava alguma resposta. Tinha consciência que naquele momento tão precoce ninguém a tinha. E tudo isso não era apenas por causa de Joana. A imagem daquele sujeito também não lhe saía da cabeça. Como era possível fazer-lhe lembrar tanto uma pessoa? E ele teria alguma coisa a ver com o caso de Joana? Sofia abriu um aglomerado de questões na sua cabeça que só um pequeno passeio poderia aliviar toda a tensão. Levanta-se e atira o plástico para dentro de um caixote do lixo junto às escadas. Parou e olhou em redor. As pessoas estavam demasiado atarantadas para repararem nela… O balcão da recepção estava vazio. Voltou a dar uma olhada para o cimo das escadas. Pensou que se fosse dar uma espreitadela lá em cima não faria mal nenhum… Passou por trás de uma planta que estava ao lado dos degraus e num arranco subiu-os a correr.

***
- Para onde vamos?
- Para onde vais tu?
- Não tenho nenhum destino em especial, e tu?
- Eu não sei onde estou…
Eve voltou a olhá-la com o seu olhar fogoso. Ergueu o sobrolho e apontou para o seu casaco que balançava para trás e para a frente nos ombros de Joana.
- Sabes uma coisa, isso está a fazer-me muita falta neste momento, vê se o vestes imediatamente senão arrependo-me de tudo o que fiz por ti esta manhã!
Joana obedeceu.
Ambas caminharam lado a lado durante pelo menos dez minutos sem trocarem nenhuma palavra. O Sol tentava dar sinais de vida por entre as nuvens cinzentas e ameaçadoras mas estas pareciam mais determinadas a manter o dia fechado. Joana seguia Eve pelos sítios onde passavam tentando lembrar-se de algo, mas não conseguia familiarizar-se com nada de Dublin. O nome não lhe dizia nada e nem a própria língua lhe inspirava confiança. Em alguns cantos já se avistavam pessoas e o comércio da zona despertava para um novo dia de trabalho. Joana não sabia o que pensar acerca de tudo aquilo, porque também parecia a primeira vez que raciocinava na vida. Sentia que algo de importante lhe falhava…
Ouviu Evelyn a cantarolar algo enquanto caminhava uns passos à sua frente. O seu corpo era esguio e devia ser pelo menos uns 15 centímetros mais alta que Joana. Os caracóis loiros oscilavam de um lado para o outro ao ritmo das passadas largas. Joana quase como por instinto passou a mão pelo seu cabelo. Era liso, completamente liso e caía-lhe pelos ombros descendo até meio das costas. Era igualmente loiro mas com leves madeixas mais escuras e não tão reluzente como o de Eve.
As pessoas atiravam alguns olhares indiscretos às duas raparigas que percorriam agilmente pelo meio de um jovem dia, ainda um pouco retardado. Joana não sentia isso. Ela é que estava retardada no meio de tudo aquilo. Eve parecia não se incomodar com nada e agia como se não estivesse acompanhada. Joana perguntou-se se Evelyn sabia que ela a seguia ou se estava verdadeiramente ciente de si. Olhou em frente e encontrou a resposta. Ela é que não sabia nada de nada!
***
Os rapazes entraram silenciosamente no armazém encoberto e adormecido, exactamente como o tinham deixado na noite passada. Adam entrou depois de todos os outros e fechou o portão. Pendurou as chaves num chaveiro de latão e seguiu-os até ao ponto de referência daquele local. A decoração do sítio era escassa e pouco sintonizada. Havia um velho e corroído sofá acompanhado por uma poltrona de couro e uma mesa desdobrável de plástico no centro, onde todos se reuniam à sua volta. Naquela época recreativa também não podia faltar um gira-discos, muito gasto mas aproveitável. Pouco mais existia ali além disso. Junto ao sofá encontravam-se duas guitarras eléctricas e uma baixo, alguns amplificadores caseiros e um kit de bateria havia sido empurrado para o canto do espaço, e ali jazia ele sumptuoso, brilhante – mudo. Aquela era a pouca área “viva” do antigo armazém de têxteis de Dublin. Pouca luz conseguia ultrapassar os vidros espessos e sujos dos respiradouros situados no alto das suas cabeças. E a pálida manhã só entrava, ainda dificilmente, pela placa transparente que cobria o edifício abandonado. Bom, não tão transparente como se pensa do lado de fora.
Paul pousou os sacos das compras e procurou algo dentro deles. Contornou a mesa e sentou-se na berma do cadeirão, abrindo uma lata de refrigerante.
- Porque é que insistes trazer o teu pequeno-almoço contigo em vez de o tomares em casa? – Pergunta Dave pegando na sua guitarra habitual.
Paul não respondeu. Levou a lata à boca e sentiu o sabor adocicado daquela bebida levemente gasificada.
Larry arrastou a bateria para o meio de modo a que todos se pudessem colocar nos seus lugares à frente dela. Adam deu uma mãozinha de ajuda e de seguida ligou o seu baixo ao amplificador.
- Porque tenho demasiada pressa ao sair de casa. – Disse Paul por fim.
- Depois temos de esperar por ti… vai dar ao mesmo! – Larry procurou as suas baquetas pelo meio de uma autêntica bola de fios eléctricos.
Dave dava uns retoques necessários na afinação da sua guitarra. Sabia que cinco minutos mais tarde precisaria de repetir o processo novamente, mas quanto a isso não se podia fazer nada. Larry andava às voltas com as suas baquetas que se estavam a fazer de tímidas desta vez e Adam tentava entender-se com o amplificador, mas por vezes era difícil acertar contas com um aparelho tão primitivo como aquele. Mas todos amanhavam-se com o que tinham, tal como Paul amanhava-se com a sua primeira refeição do dia.
- Salta daí, senhor conde! – Exclamou Adam batendo nas costas do amigo. – Estamos à tua espera, Bono Vox!
Paul olhou para cima e vislumbrou a cara sorridente de Adam.
- Pessoal, não encontro as minhas baquetas!
***
- Bom, estás satisfeita agora, Ivone?
- Não.
António e Ivone abandonavam agora o edifício e regressavam a sua casa. António ainda se encontrava incomodado com o que acabara de fazer. Mas pior que isso seria mesmo contrariar Ivone.
As ruas do Porto estavam um pouco agitadas. O trânsito completamente parado nos sítios mais problemáticos no que toca a movimento. Era esse o ambiente natural da cidade. Comércio, trânsito e pessoas, muitas pessoas.
- Já viste tudo o que tinhas para ver! Não há nada de suspeito na casa. – António tentava parar a paranóia da sua esposa.
- Sabes que há. Estiveste lá como eu e viste o que eu vi. Sabes muito bem que aquela casa é tudo mesmo normal.
- E o que tens a ver com isso? O que vais fazer?
- Não vou fazer mais que a minha obrigação… sabes como eu sou!
***
O chão do corredor era branco e lustroso e estava completamente livre para Sofia poder avançar sem medo. Era fim de tarde mas o sol ainda iluminava tudo claramente pelas extensas vidraças viradas para a auto-estrada. O hospital era inteiramente um caos num edifício só, pensava Sofia até ao momento em que entrou naquele patamar. Estava deserto e meticulosamente arrumado e desinfectado. Podia-se sentir o cheiro a limpeza. Achou no mínimo estranho não haver nada nem ninguém por aqueles sítios. As portas apresentavam todas um pequeno vidro no alto no qual se podia espreitar para o seu interior. Sofia fazia questão de o fazer. Em cada espaço atrás das portas havia pouca coisa para ver. Tudo era limpo e igualmente arrumado. E nada mais além de uma cama e alguns aparelhos electrónicos que se ligavam directamente aos doentes. Sofia apercebeu-se da terrível situação e quase chorava só de pensar em Joana. Decerto que não estaria no sítio certo. Estava prestes a dar meia volta e ir embora quando pressente algo a trás de si. É o barulho de uma porta! Sem pensar duas vezes corre até ao fim do corredor e vira à sua esquerda antes que alguém a descobrisse. Rezou para que quem quer que fosse não a visse ali. Fechou os olhos com força e encostou-se o mais que pôde à parede. Cravou as unhas na carne das palmas das mãos e esperou. Tudo ficou silencioso como dantes. Abriu novamente os olhos.
- Olá!
O coração da rapariga quase saiu disparado do seu peito. Sofia deu um pulo quando viu um homem a sorrir-lhe com todos os dentes da sua boca. Foi o que vira à um tempo atrás no consultório da doutora Elsa. Sorriu envergonhada e nervosa e colocou as mãos atrás das costas como se escondesse algo.
- Olá! – Respondeu ela no mesmo tom de voz. Nunca ficara tão embaraçada na presença de alguém. Talvez fosse do susto que apanhara. Sorria, mas tremia por todos os lados, como se estivesse na presença de alguém superior.
- Tudo bem? – perguntou ele. – O que fazes aqui?
- Sim… - Não! A outra pergunta, estúpida! - Quer dizer… eu acho que estou… perdida e… hum…
- Andas à procura da tua irmã?
- Ya! – Hei! Pára com os trimeliques, miúda! Ele sabe de tudo! – Mas como é que…
O senhor de cabelos grisalhos ri-se baixinho. – Calma. Eu já te conto tudo. Queres encontrar a Joana ou não?
- Sim… é claro que quero! – Falou ela estava pouco convencida. – O senhor sabe onde ela está?
- Tenho o mapa! – Responde ele com ar glorioso mostrando o papel diante do olhar de Sofia.
- Como é que…
- Shhh… - O homem encostou o dedo aos lábios. – Fala baixo… - sussurrou ele sorrindo levemente. – Não queres que nos descubram, pois não? Já te disse que te conto tudo depois. - Estendeu-lhe a mão. – Anda.

sábado, 7 de julho de 2007

Capítulo 7 - Segunda Parte

Capítulo 7 – Won’t you come back tomorrow?
Segunda e Última Parte

- Isto vale uma pipa de massa! – Exclamou Ivone vagueando pelo pequeno estúdio.
- Ainda estou para perceber qual é a tua intenção.
- Olha-me só para este mostrengo... – diz Ivone sorridente pressionando nas teclas do piano.
O som agudo do instrumento ecoou por toda a sala e espalhou-se pelo corredor da entrada. António fechou a porta atrás de si.
- Quem é que é capaz de viver no meio desta balbúrdia? – Pergunta ele incrédulo caminhando pelo meio dos quadros.
- Isso vim eu cá saber! – Responde Ivone sentada diante da secretária completamente coberta de papéis e alguns envelopes fechados.
Decide pegar num. Devidamente fechado. Ao princípio mal conseguiu ler o que lá estava escrito e depois compreendeu porquê. Estava escrito em Inglês. Um Inglês correcto escrito numa caligrafia um pouco rabiscada de mais. Aliás, toda a papelada em cima da escrevaninha estava escrita à mão e em estrangeiro.
- O que é? – Pergunta António aparecendo por detrás de Ivone.
- Cartas, montes de cartas! Sem fim, olha só! – Ivone remexe no meio da desordem e pega num monte de envelopes fechados. – Estão todas por ler!
- Ou todas por enviar.
- Consegues decifrar? – Pergunta ela fazendo baloiçar o envelope diante dos olhos de António. – Está em Inglês.
- Querida, eu mal percebo a nossa língua, que fará a língua dos outros! – responde ele atirando a carta de novo para o monte.
- O que é isso? – Pergunta Ivone apontando para uma pequena caixinha que António segurava nas mãos.
- Ah... acho que é uma harmónica. – Responde ele abrindo-a.
O pequeno objecto metálico brilhava dentro da caixinha avermelhada, como uma pérola na sua concha. Era sem dúvida uma harmónica. Parecia novinha em folha. António voltou a fechá-la e pousou-a cuidadosamente em cima do piano.
Voltou-se para trás e não viu Ivone em parte alguma da sala. Deu mais meia volta e reparou numa porta entreaberta e avançou.
- Olha o que eu encontrei. – Diz ela.
Estava sentada na berma de uma cama num quarto bastante espaçoso. Havia uma manta repuxada para um fundo da cama e Ivone despejara a gaveta da mesinha de cabeceira para cima da colcha.
- Só sabes desarrumar!
- Olha.
Ivone entregou a António uma fotografia.
- Achas que é ele?
António olhou para o jovem da foto. – Parece-me que sim...
- Caramba, cada vez acho que o conheço de algum lado! Não sei... faz lembrar alguém!
- Olha, há aqui outra. – Diz ele pegando numa pequena figura a cores um pouco desbotadas. – Deve ser ele com o seu grupo de amigos, não te parece?

***
Larry caminhava ligeiramente à frente do grupo. Ia cabisbaixo e não tinha falado nada desde o pequeno percalço de à pouco. E não era só ele. Paul estava completamente a leste do assunto de conversa de Adam e Dave.
A manhã estava mais fresca que o normal. Havia começado o Outono à pouco e as aulas regressaram também na Mount Temple para a maioria dos jovens de Dublin. Mas não era por isso que os The Hype deixavam de tocar. Muito pelo contrário, a sua agenda estava mais sobrecarregada que nunca. Desde a última actuação que não deixaram de “chover” convites por parte de discotecas e bares da zona. Tinham bem a consciência que a sua fama era cada vez maior e o seu nome bastante divulgado pela cidade. Para quatro rapazes que cresceram nas entranhas de Dublin esse facto era electrizante e quase paralisante, mas muito animador saber estabeleciam um contacto muito forte com o seu público de cada vez que actuavam. Aliás, não eram apenas quatro... havia o Dick. O irmão de Dave que comparecera ao seu lado desde o primeiro dia. Bem, nem sempre estava presente, digamos antes assim. Apesar de ser o único no grupo que já não frequentava a escola tinha muito pouco tempo para a banda dado que a maior parte das vezes eram só os restantes quatro que faziam o trabalho de ensaio. Dick só se limitava a aparecer nas actuações com a sua guitarra e tocar juntamente com os outros. Por isso, toda aquela vivência de grupo e de trabalho de equipa era vivida com Paul, Larry, Adam e Dave. Larry chegou a perguntar-se muitas vezes se Dick fazia parte dos The Hype ou não, ou se era apenas um acompanhante e ajudante de audiências. Na verdade, a banda nem necessitava de outro guitarrista, Dave saía-se bastante bem.
O grupo subia a O’Connel Street um pouco calado, o que não era habitual. Normalmente era uma valente confusão quando se juntavam todos. Tinham sempre motivo de conversa e chacota e já para não falar nos assuntos dos The Hype que tinham em conjunto. Naquela manhã fria e húmida sentia-se uma atmosfera um pouco tensa no ar que os manteve um pouco distantes durante a curta viagem até ao cimo da avenida.
Paul apertou o casaco até cima e encolheu os ombros tiritando de frio quando acompanhou os amigos a atravessarem a rua. Aquela era a velha cidade de Dublin que ele bem conhecia. Juntou as mãos em forma de concha e respirou uma lufada de ar quente fazendo uma nuvem de fumo branco escapar-se-lhe por entre os dedos. Olhou para as árvores estáticas e despidas plantadas no meio da estrada e perguntou-se como iria estar a sua voz para o ensaio depois daquele momento tão resfriante. Uma porcaria, como já estava habituado!
Não muito longe dali, Joana aceitava o casaco da sua nova amiga passando-o pelos ombros. Ficava-lhe um pouco largo mas não fez caso.
- Onde estamos? – Pergunta ela levantando-se apoiada em Eve.
- Acordaste em plena O’Connel Street na manhã mais fria do ano com apenas um vestidinho de Verão no corpo! Eu tinha logo morrido de hipotermia! – Exclama Eve acendendo um cigarro por entre as mãos. – Detesto o frio. É por isso que moro na Irlanda, entendes?
- Não.
Evelyn MacBrennan queimou literalmente metade do cigarro com uma só passa. Olhou para Joana com desprezo por detrás dos olhos vermelhos e inchados. Libertou todo o fumo dos pulmões devagar que formou uma nuvem cinzenta sobre as duas cabeças.
- Como te chamas? – Perguntou Eve olhando para os pés quanto caminhava.
Joana não respondeu logo. Estava a tentar habituar-se à ideia que estava num lugar desconhecido. Podia ser uma questão de segundos, mas não. Não se lembrava de todo como se chamava.
- Não sei. Não me lembro...
Evelyn soltou um gritinho perverso fazendo os olhos brilharem de excitação. – A noite deve ter sido mesmo muito louca para nem sequer te lembrares do teu próprio nome!
- O quê?
Joana olhou incrédula para Eve que se ria descontroladamente.

Fim do Capítulo 7

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Capítulo 7 - Primeira parte

Capítulo 7 – Won’t you come back tomorrow?
Primeira Parte
Ivone esboçou um largo sorriso de contentamento ao baixar o auscultador do telefone. Desapertou com agilidade o avental do corpo e atirou-o para um cadeirão verde e poeirento no canto da sala. Apresentou-se à frente do espelho da entrada e arranjou os caracóis com as mãos satisfeita com a sua descoberta, e que lhe saíu bastante barata, por um acaso.
- António, vamos dar um passeio, querido! – diz ela dando os últimos retoques na roupa.
- Tás doida? – pergunta ele incrédulo aparecendo no corredor. – Temos trabalho a fazer! Não estamos com tempo para passeios!
- Deixa, o café fica por conta da miúda! – diz ela rispidamente. – Vamos lá!
- Tudo bem... – diz ele com pouca convicção voltando para dentro. – Então, onde queres ir?
- Dar uma voltinha pelas redondezas...
Ambos moravam no apartamento restaurado que ficava por cima do seu negócio. Aquele era um bairro muito típico do Porto e o mais antigo também. Não era zona muito apreciada pelos visitantes, talvez pela crueza dos habitantes e costumes reservados apenas aos mesmos. Toda a gente se conhecia lá, e por isso a uma nova cara já era motivo para se comentar e por vezes levantarem-se suspeitas e boatos que originavam olhares desconfiados. Talvez por essas pessoas viverem num mundo tão à parte. Outrora havia sido um bom lugar para se viver. O rio Douro brilha a poucos passos das casas e situa-se num bom lugar com vistas lindíssimas.
Passava pouco das três horas quando Ivone e António deixaram a casa e o café por conta da sua filha mais velha. Ivone estava mais que decidida a descobrir a história que o velho deixou por contar. A história escondida por detrás dos pequenos olhos azuis empolgantes. Por isso levou o marido com ela à primeira oportunidade que viu.
A tarde aquecia cada vez mais. O Sol já se posicionava ligeiramente para a esquerda o que já era bastante bom porque fazia alguma sombra em alguns sítios. António parou alguns passos atrás de Ivone e olhou para o beco odiondo e cinzento onde se encontravam. Não havia nada além de paredes altas e um pequeno e triste edifício que parecia deslocado do espaço.
- Tens a certeza que é esta a casa? – pergunta António seguindo a esposa receoso.
- Sim, a minha irmã disse-me que viu a ambulãncia aqui mesmo. Só pode ser esta a casa. – informou Ivone avançando sem medo.
- Como estás a pensar entrar? Olha que alguém ainda nos apanha, Ivone!! – alertou o pobre homem.
A mulher empurra a porta entreaberta e entra. Fugindo dos aglomerados de lixo amontoado nas escadas sobe-as rapidamente até chegar ao primeiro e único andar. António segue-a lentamente prestando mais atenção às palavras obscenas escritas a tinta nas paredes.
- E se estiver alguém lá, Ivone? Não podemos fazer isto, mulher, estamos a invadir a privacidade de uma pessoa! - O que estás a dizer? – pergunta ela voltando-se para o marido. – Quero só saber notícias da rapariga e dar algum apoio moral ao senhor! Não sejas tolo mas é!
***
Carla não sabia como tinha sido capaz de conduzir o carro se nem sequer sentia as pernas. As mãos tremiam-lhe e estava a suar por todos os lados. Sofia não falou nenhuma palavra durante o trajecto inteiro. Limitou-se a olhar para o lado da janela enquando a mãe passava semáforos vermelhos e ignorava os outros condutores que businavam indignados e confusos. Pensava nas mil e uma coisas que podiam ter acontecido à irmã mas não tinha coragem de pôr a hipótise de lhe acontecer algo de grave. Carla estaciona desajeitadamente o automóvel no parque do hospital. Saem as duas e atravessam a correr por entre os carros. Ao chegar à entrada do edificio aceleram o passo. É então que empurram as pesadas portas de madeira, para uma nova dimensão.
***
- Como pudeste verificar, não está ninguém em casa, por isso vamos embora daqui. – diz António pela segunda vez a Ivone que permanecia imóvel em frente à porta do velho.
Pensativa, passou a mão pelo queixo e olhou à sua volta. Não havia nada ao seu alcance a não ser paredes corridas num pequeno corredor estreito.
- Calma, homem. Só quero verificar que está tudo bem.
António estava confuso. Cruzou os braços e esperou.
- Sabes, as pessoas, por muito que saibam que é óbvio demais esconder a chave debaixo do tapete de entrada... – fala ela abaixando-se diante da porta. - ... nunca deixam de o fazer.
António arregalou tanto os olhos que parecia que lhe iriam saltar das órbitras. Ivone saca uma pequena chave de metal por de baixo do tapete gasto da soleira da porta e fa-la dançar diante dos seus olhos, vitoriosa.
- Fantástico! – exclamou o homem ironicamente. – Vamos embora.
- E se... – falou Ivone metendo a chave na fechadura.
- Oh... não Ivone!
- Sim! – contradisse ela rindo-se.
- Acabo de conhecer o teu lado mais demoníaco, e não estou a gostar nada!
Ivone riu-se ainda mais quando a chave rodou com facilidade e a porta deixou entrar alguns raios de luz para o corredor escuro. O coração de António disparou quando viu a mulher a espreitar para lá do vão da porta.
- Tens de ver isto, maridinho! – disse ela entre gargalhadas.
- Grande apoio moral que estás a dar...
***
O velho deixou que a água deslizasse livremente pela garganta e desfrutou ao máximo daquele pequeno prazer. Pousou o copo vazio na secretária e voltou a sentar-se.
- Não sabe que nestas alturas se deve beber muita água para não desidratar? – resmungou a moça observando-o cuidadosamente.
- Eu costumo beber muita água. O tempo é que não ajuda nada... – grunhiu ele passando as mãos pelo cabelo molhado.
- Por isso mesmo! Bom, deixando isso de parte, quero saber mais pormenores de como tudo aconteceu! Os enfermeiros que o acompanharam afirmaram que não sabia muito bem o que se tinha passado a Joana partindo do princípio que nem sequer a conhece... como foi ela parar a sua casa?
- Não é bem assim... Eu quis ajudá-la a tratar do seu poster e por isso levei-a para minha casa. Na verdade, eu encontrei-a na rua perdida.
- Sim. – consentiu. – Nós contactamos com a mãe dela e ela estava muito aflita por nem saber onde ela estava. Sabe que isso pode trazer confusão para o seu lado.
- Sim, sei disso tudo! Sei disso desde o primeiro instante que estive com ela, mas que queria que fizesse eu? Agora essas circustancias não me incomodam e nem sequer alteram a situação em que a Joana está! A única prioridade neste momento é ela, certo? A propósito, deviam-se preocupar primeiro com ela não comigo. – disse ele um tanto irritado.
A mulher riu-se delicadamente e chegou-se à frente olhando-o directamente nos olhos.
- A Joana já está sobre observação. Agora, aqui podemos tratar dos assuntos menos relacionados com ela. Olhe, eu compreendo a sua posição, e por isso quero ajudá-lo.
A sua voz doce mas directa entuou nos seus ouvidos como uma melodia. Ela sorriu levemente e deixou a sua mente ainda mais baralhada do que já estava.
- Agradeço imenso a sua disponibilidade, a sério! – disse ele levantando-se de retorno à saída. – Mas não preciso agora de defensores! Sei bem o que faço e quais as minhas intensões!
A médica levanta-se de rompante e impede a passagem do velho.
- Não fuja de mim! – ordenou ela puxando-lhe o braço.
O homem não se queria deixar levar pelo cântico enfeitiçador da sua voz mas retrocedeu.
A porta abriu-se de rompante sem aviso e Carla entrou pelo consultório seguida de Sofia.
- Hum... boa tarde, sou a mãe da Joana e... – balbucionou Carla procurando alguém dentro da sala.
- Sim, sim! Falamos lá fora! – disse a médica conduzindo-a para fora do consultório.
Sofia ficara.
O homem reparou o quanto era parecida com Joana. O olhar curioso e imperdoável por dirigir uns olhos tão verdes e grandes quanto possível não faziam só recordar Joana. Sabia que estava mais alguém relacionado com as duas...
Carla puxou Sofia para fora fazendo esta rodopiar desajeitadamente.
O velho viu-se finalmente sozinho. Já não aguentava mais aquilo! Bateu ruidosamente com o punho num armário e tentou explusar toda a raiva que sentia. Como é que podia conhecer a rapariga se nem sequer se conhecia a si próprio?
Fim da primeira Parte

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Capítulo 6

Nem vale a pensa dizer nada... após um mês sem postar, esta desavergonhada vem agora pôr pra aqui uma caganita de capítulo!? XD
Bem, espero que gostem! Acho que está a ir pelo bom caminho!


Capítulo 6 – Where the Streets Have no Name

Joana tentou a todo o custo encaixar as peças na sua cabeça. Estava completamente baralhada quanto àquela estranha situação. Uma súbita ventania levanta-se naquele lugar que fez rodopiar as folhas secas depositadas nos cantos dos passeios. Joana também se viu obrigada a segurar-se para não caír. Os longos cabelos cor de ouro voaram violentamente em todas as direcções em protesto de sua fúria.
O rapaz ainda lá estava. Vestido num blusão de cabedal parecia muito bem conjugado com o ambiente daquele dia. Joana olhou para ele. Tinha um olhar intenso mas agradável. O rosto era magro e um pouco sarapintado com sardas. O cabelo era espesso e preto e caía sobre a testa, completamente despenteado. Joana achou curioso. Parecia um misto de sinistralidade com um certo humor.
Mas Joana ainda sentia a cabeça andar à roda juntamente com o estômago quando o ouviu babulciar qualquer coisa que não conseguiu decifrar.

***

O velho com um impulso conseguiu subir para a ambulância num lugar da frente. Ele guiaria-a até Joana, uma vez que não havia morada concreta da sua casa. Estava inquieto e um pouco envergonhado.
O veículo arrancou a toda a velocidade pela rua acima fazendo um berreiro de todo o tamanho. Os enfermeiros e pessoal de auxíliar iam fazendo perguntas no qual lhe custava responder. Na verdade ele não conhecia Joana, não sabia quem ela era nem de onde veio. Isso era o bastante para se sentir culpado de tudo.
Afundou a cara nas mãos e limpou o suor. Inspirou fundo.

***

Ivone Costa e António estavam nas traseiras do café quando a ambulância partiu. Desempacotavam algumas garrafas e traziam-nas para dentro. No meio da balbúrdia, Ivone falou ao marido:
- Reparaste na pronuncia estranha do homem?
- De quem? – Pergunda António distraído com o trabalho.
- Do homem de há bocado! – responde a mulher.
- Devia ser estrangeiro, ou então era do sul, sei lá. – diz ele sem levantar o olhar.
- Achei-o muito estranho e suspeito, juntamente com a história que ele contou da menina. Então ele nem sequer sabia onde morava?! – diz Ivone ao marido.
- Deve ser novo cá. Nunca o vi por estas bandas.
- Nem eu... – concorda ela pensativa.
- O que estás a a tramar, mulher? – pergunta ele empilhando mais um monte de cervejas a um canto.
- Tenho de tirar esta história a limpo.

***

Joana apercebeu-se da terrivel realidade. Não estava apenas a sonhar. Tudo aquilo era bem real. E não estava sozinha.
Tentou proteger os seus braços gelados da ventania que se fez sentir. Apercebe-se também que a rua é muito mais larga e longa do que pensara quando a olhou de relance. Ainda estava sentada e queria-se levantar mas assustara-se com os quatro vultos que se atravassavam em sua frente.
- Hã... It’s everything fine... with you? – repete o rapaz de preto chegando-se mais perto.
- Do you need something? – pergunta um outro rapaz de de franjas douradas, tão compridas que chegavam a espetar-lhe nos olhos.
Joana sentiu-se como se tivesse andado numa montanha russa.
Eles eram quatro e já os conseguia ver nitidamente. Pareciam ter saído de algum filme de acção ou algo não menos caótico que um desastre de automóvel. Os rapazes estrangeiros olhavam para ela com a mesma expressão confusa.
Joana queria responder algo mas não lhe saía nada da boca.
Chegando do nada, alguém enterrompe o confronto de olhares com uma voz imponente. Nem deu tempo de Joana responder.
- Vamos lá bazar daqui! Saiam, a moça está comigo!
Joana desviou o olhar. Uma mulher, uma aparente jovem mulher, agachou-se à sua frente e olhou-a nos olhos com frieza.
- Trouxe-te isto! – Disse ela enfiando-lhe um pequeno saco de papel nas mãos. – Deduzi que tivesses fome... como deves ter ficado a noite ao relento!
Ela falava num inglês corrente que Joana mal compreendia. Tinha uns cabelos encaracolados, não muito compridos num loiro quase cegante. Os olhos eram cor de mel muito bem disfarçados pelas carregadas olheiras roixas pingadas no rosto sem cor.
- Thank you. – respondeu Joana envergonhada olhando para dentro do saco.
- O meu nome é Evelyn. – disse ela. – Mas podes tratar-me por Eve.

***

A maca onde Joana repousava rolava agilmente pelo chão liso e brilhante dos corredores das urgências. O pequeno homem seguia os médicos e todas aquelas pessoas que rodeavam a moça numa tentativa de perceber alguma coisa do que falavam. Perdido que nem um passarinho agarrava com fervor na mala de Joana procurando em alguma coisa onde se agarrar. Estava esgotado.
Áquela hora não se podia sequer pensar em entrar naquele hospital. Mesmo no centro da cidade, era para onde se dirigiam a maioria dos casos mais graves e delicados de toda a região. Haviam pessoas atarantadas por todo o lado e em todos os cantos permanecia alguém tentando circular no meio de todo aquele cenário turbulento.
Surgindo de uma porta, uma mulher bonita avança ao encontro do senhor. Era morena com uns cabelos castanhos muito compridos e toda vestida de branco chamou à sua atenção. Sorridente e com um olhar muito sereno pegou na sua mão delicadamente e conduziu-o de retorno à saída.
- O senhor é o que acompanhou a rapariga na ambulância, não é?
- Sim. – Respondeu ele deixando escapar uma gota de suor que escorreu rapidamente até ao pescoço.
- Venha comigo por favor. Vamos falar um bocado sobre si e sobre a menina Joana. – disse ela num tom de voz muito calmo que deixou o homem ainda mais nervoso.
Ela conduziu-o para uma pequena sala do outro lado do hospital. Por lá as coisas já estavam muito mais tranquilas. A jovem entra e fecha a porta atrás de si depois de deixar o homem acompanha-la também.
- Ora, então quem é o senhor? – pergunta ela escondendo-se por detrás da sua secretária. – Pode sentar-se, por favor.

***


- Fica descansada filha, eu vou num instante ver o que se passa e depois volto!
Arrumou a carteira no ombro e calçou as sandálias à pressa.
- O que disseram ao telefone? – pergunda Sofia.
- Encontraram-na. Deu entrada agora no hospital e... ainda não sabem o seu estado, apenas encontra-se inconsciente. – explicou Carla entre suspiros. - Não saias de casa! – ordenou ela abrindo a porta.
- Vais deixar-me sozinha sem saber o que se passa com a Joana? Acho que tenho o direito de...
- Vamos!
Saíram as duas a correr para o hospital.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Dia de festa!

Novo capítulo? Infelizmente, não, mas estou a trabalhar nele. Bem, estou aqui a escrever por uma razão: Porque hoje é um dia especial!
Foi a dia 10 de maio de 1960, em Dublin, que um rapazinho quase cor-de-rosa veio ao mundo. De seu nome Paul chegou para revolucionar as nossas vidas juntamente com a sua banda de rock mais tarde formada. Hoje, com 47 anos acabados de fazer, ainda continua a surpreender todos os fãs e não fãs por cada passo que dá.
Não há palavras que possam descrever por completo este homem tão extraordinário, quase-quase cor-de-rosa, mas todos os que o conhecem bem sabem do que falo.
Feliz Aniversário Bono! Esperemos ver-te por cá por muitos e longos anos cheios de alegria, amor, emoções fortes e muuuuita música! Dois grandes beijos para o meu Irish Man quase-quase-quase cor-de-rosa!





PS: Agradecimentos à Adri Soul Love da UV que deixou eu postar a assinatura dela do fórum!! BEIJÓ!!

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Capítulo 5

Running to Stand Still

A tentativa de reanimação não tinha resultado. Desapontado e um ainda mais aflito, o homem tentou encontrar algum contacto de alguém na bolsa que Joana trazia consigo. Desesperado despeja o conteúdo da mala para o chão e procura no meio dos papéis alguma solução. Mas nada parecia bater certo ali. Todo aquele cenário para ele era estranho e inútil para a sua angústia em deixar partir aquela rapariga, que permanecia ali tão serena e divina repousando no seu sono proibido. Calmamente, demasiado até, senta-se ao seu lado. Pega na sua mão e beija-a.
- Onde estás tu? – pergunta baixinho ao seu ouvido.
Acaricia a sua pele mais uma vez. Tão macia.
- Quem és tu, meu anjo? – questiona ele de novo tentando perceber quem era a rapariga que lhe tinha surgido do nada naquele dia tão solitário.
Ela parecia iradiar luz. Fez lembrar-lhe uma deusa pronta a ser adorada. Talvez fosse mesmo isso que estava a ser para ele naquele momento. Uma lágrima escorreu-lhe pela face. Outra. Sem saber porquê nem como estava a chorar. Por ela.
De súbito, lembra-se do estado da menina e volta a verificar a pulsação. Não tinha melhorado nada. Não não sabia o que fazer mais. A sua vontade era ficar ali a olhar para ela, tão sublime, mas sabia que isso não iria resolver nada.
Apressou-se. Abriu o velho guarda-fatos e tirou uma manta grossa. Com esperanças que isso fosse reanimar Joana passou o cobertor por cima dela e aconchegou-a. Depois disso chegou perto dela e beijou-lhe na testa.
- Aguenta-te aí. Eu venho já, minha querida.

***

Carla segurava trémula no telemóvel enquanto aguardava a resposta. Sofia, do lado dela, esperava também numa pilha de nervos.
- Então? – pergunta ela puxando o braço da mãe.
- Espera. Eles disseram para aguardar.
Carla volta a ouvir a voz do outro lado da linha:
- Está?
- Diga-me se a minha filha deu entrada no hospital, por favor.
- Pela descrição e o nome que me deu, não deu entrada de ninguém neste hospital.Tente saber noutros.
- Está bem, obrigada. Fique com o meu contacto, caso seja preciso. Boa tarde.
Sofia puxa Carla até um banco ali perto e sentam-se as duas.
- Tenta outros. – pede Sofia.
Carla pega novamente no telemóvel e marca outro número. Espera.
- Hospital São João. Boa tarde, o que deseja dos nossos serviços?
- Boa tarde. Seria possível saber se deu entrada de alguém no hospital esta manhã?
- Claro. Percisamos dos dados pessoais dessa pessoa.
- É a minha filha. Ela está desaparecida desde hoje de manhã. Tem 16 anos e o nome dela é Joana Novais.
- Aguarde só um pouco...
Carla esperou uns instantes segundos até que a voz regressa.
- O nome não consta na nossa lista, mas também acho um bocado cedo para a senhora procurar a sua filha nos hospitais. Se ela só desapareceu hoje então aconselhava esperar mais um pouco.
- Esperar? Como é que eu posso apenas esperar? Se ela não regressou a casa por algum motivo foi, não acha?! – disse Carla descontrolada. Sofia pega na sua mão.

***

O homem sentiu uma lufada de ar quente mal passou a porta para o exterior. Não tinha notado que dentro de casa estava muito mais fresco do que aquele dia fora das quatro paredes. Mas também não fez caso. Estava agora muito mais alerta a uma cabine telefónica ou estabelecimento que lhe pudesse atender num momento de imergência e aflição.
Correu. Correu o mais que o seu corpo lhe conseguisse dar. Ironicamente, agradeceu pelo bom físico que tivera na sua juventude. Nunca antes pensou que toda a sua vida empolgante e fora do normal que tivera no passado lhe poderia dar tanto jeito num momento como aqueles.
Não se preocupou com mais nada a não ser em Joana. Como não conhecia grandes sítios daquela zona então limitou-se a guiar-se por intuição. E não era nada mau nisso, diga-se de passagem.
O fôlego começou a falhar-lhe e as pernas já só corriam submetendo-se apenas ao pensamento. O calor tornou-se uma forte barreira para seus passos determinados. Gotas grossas de suor começavam a escorrer-lhe pela cara e pescoço e sentiu a t-shirt ligeiramente molhada. Assim continuou firme. Avançou por entre as casas, ruas e quarteirões desertos que pareciam infinitos.
Completamente estafado chega a um largo onde encontra à sua esposição uma dúzia de pequenos cafés e tascas, típicos da zona baixa do Porto. Veio a calhar. Depois daquela descarga de energia louca, quase nem conseguia manter-se em pé. Agarrou-se à parede mais próxima e foi quase como às apalpadelas até conseguir entrar no primeiro estabelecimento que viu mais próximo.
A pequena taberna naquele momento alujava apenas meia dúzia de pessoas, ou nem tantas cabiam naquele espaço apertado. Áquela hora era mais propício a presença de alguns mendigos que arranjavam uns trocos e conseguiam comprar umas míseras refeições à hora do almoço. Fora esses, poucos sentavam-se nas mesas redondas a jogar cartas ou a beber cervejas solitários.
A zona do outro lado do balcão estava deserta. Ao fundo da tasca, uma mulher de cabelos ruivos, sentada numa cadeira assistia a um jogo de futebol pela televisão quando repara no velho a entrar de rompante por lá dentro. Surpresa, ela arrasta-se nos chinelos de quarto e vai ao encontro do homem exausto e ofegante.
- Credo! O senhor está bem?! Precisa de alguma coisa?? – pergunta ela ajudando-o a sentar-se.
O velho nada respondeu. Precisava de instantes momentos para se recompor e explicar a situação. A mulher olhava para ele sem expressão por detrás da camada excessiva de maquilhagem na cara.
- Quer um copo de água ou assim?! – pergunda ela. – Ó António!!! Chega um copo d’água p’ra este senhor! - gritou.
- O que foi, mulher??! – pergunta um homem pondo a cabeça para fora da porta de acesso reservado aos funcionários.
- Vai buscar um copo d’água! Este senhor não se está a sentir bem!! Anda rápido pá!
O sujeito desaparece ainda mais rápido por onde apareceu. Num instante regressa com um copo nas mãos, caminhando o mais que consegue sem fazer trasbordar a água.
- Dá cá! – pede a mulher dando a água ao velho.


***

- O que fazemos? – pergunta Sofia desapontada.
- Não faço a mínima ideia. Como é possível eu sentir-me tão inútil nesta situação? – pergunta Carla limpando o suor da cara.
- Junta-te ao clube! – resmunga Sofia pontapeando as pedras que se atravessava no seu caminho - Acho que o que temos melhor a fazer é irmos para casa e esperarmos por notícias ou que ela chegue, com certeza que há uma explicação.
- Sim, vamos. – disse Carla pouco convencida.

***

- Ele não disse o que tinha? – pergunta o senhor da taberna à mulher.
- Não! Entrou-me por aqui a dentro neste estado... – responde ela como se a presença do velho não fosse significativa.
- Eu vim pedir auxilio – diz por fim ele.
Toda a atenção vira-se para o homem que já respirava calmamente.
- Vim a correr de minha casa até aqui porque preciso urgentemente de uma ambulância! – exclama ele levantando os seus olhos inchados para o casal à sua frente.
- É p’ra si?! – pergunta a mulher dando uma cotovelada ao marido. – Vai buscar o telefone!
O homem volta a desaparecer num ápice pela porta dos fundos.
- Não, não é para mim! – responde. - É para uma rapariga que está neste momento incosciente. Ela desmaiou do nada à cerca de meia hora atrás, e não sei o que se passou com ela. Julgo eu que é grave...
Sem ninguém reparar, duas lágrimas rolam pela sua cara abaixo. – Ajudem-na, por favor!
- Porque é que não chamou logo o INEM?
- Porque não tenho telefone em casa.
A mulher olhou-o estranhamente de cima a baixo. Nunca o tinha visto antes por aquelas bandas. Soava-lhe estranho a maneira como ele falava.
O homem da tasca rapidamente regressou com um telemóvel nas mãos e deu-o para a mulher. Ela marca o 112 e espera.
- Diga-me só a sua morada. – pede a Mulher.
O coração do homem parou.
- A minha morada?! – pergunta ele trémulo.
- Sim, o endereço!
- Bem, eu sei indicar-lhe o sítio mas...
- Estou?! Precisamos d’uma ambulancia para socorrer uma pessoa que está inconsciente! – diz ela pelo telefone.
A morada? Morada... o velho não fazia ideia do nome da rua nem do número da porta. Raios! Nada! Assim como ia ajudar a localizarem a casa?! Como foi capaz de esquecer-se de um pormenor tão importante?! Algo de muito estranho se passava ali...
– Diga-me a sua morada! – insiste a mulher mais uma vez.

***

Joana, muito longe de se poder integrar na situação tão caótica que se vivia por sua causa, deixava-se levar por um sono profundo. Não apenas um mero sono profundo de um recém-nascido. Também não estava literalmente morta. Talvez perto disso. Mas podemos dizer que, apesar do seu estado insconsciente vivia momentos nunca antes imaginados e talvez nunca mais recordados. Sentia-se livre espiritualmente, o que era um senimento deveras agradável. Divino. Viciante. Tinha a mente completamente vazia. Como se tivessem passado uma toalha branca sobre ela. Nenhuma parte do corpo se parecia encaixar na outra. Estava imóvel mas não propriamente parada.


24 de Setembro de 1977

Joana sentia o corpo durido. Tinha o braço dormente. Provavelmente estava deitada sobre ele. Sentiu um arrepio pela a espinha abaixo e estremeceu. Ouviu passos junto ao ouvido. Sussurros aproximando-se.
Luz. Raios de luz intensos invadiram sem piedade a sua vista quando tentou abrir os olhos. Reclamou de dores nas costas e ouviu vozes de pessoas, desconhecendo completamente onde estava. Também não sabia de todo o que fazia ali nem como. E o estado em que se encontrava também ainda lhe parecia estranho.
As vozes pareciam não querer deixa-la em paz. Abriu-se ali uma grande confusão à sua volta. Estava irritada consigo mesma e com quem não a deixava dormir.
Abriu os olhos, ainda dificilmente. Estava na rua. Mais concretamente no meio do passeio deitada sobre um degrau junto a uma porta. Tentou apoiar-se só num braço enquanto afastava os cabelos da cara. Esfregou os olhos e respirou fundo a brisa fresca que lhe atravassava as ideias. Sentia a sensação de vazio e na mente conseguia-se desenhar um ponto de interrogação questionando a sua existência.
Conseguia ver o outro lado da estrada. Algumas portas direccionadas para a rua com slogans publicitários por cima. De repente, vindo do nada uma cara atravessa-se no seu plano de visão. Assusta-se e sustêm a respiração. O rapaz parecia ainda mais confuso do que ela própria e sentiu-se encomodado com a reacção de Joana. Tinha uns pequenos olhos azuis brilhantes e um cabelo completamente desalinhado que parecia rodopiar no alto da sua cabeça. Os finos e demarcados lábios rasgavam um aparente rosto jovial de adolescente irreverente e sonhador.

domingo, 1 de abril de 2007

Capítulo 4

Olá a todos! Sim, é desta que vou postar o capítulo 4! Quero pedir-vos desculpas pelo atraso! Mas, sabem como é, pouca inspiração no ar, e depois eu penso que foi dos capítulos mais complicados de escrever. Tinha de ter todo o cuidado para a coisa não descambar para o outro lado e vocês não compreenderem. Bom, aqui está ele novinho em folha. Boa leitura! E obrigada.
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I’m getting ready to leave the ground

O relógio de parede marcava a uma e meia da tarde. O quadro estava quase pronto, mas o que preocupava sériamente Joana é que ia demorar eternidades a chegar a casa, até porque, não tinha ideia de como chegar para casa, na verdade. A sua mãe devia estar preocupada e isso inquietava-a. Um telefone dava mesmo jeito naquele momento. Joana não parava de se merterizar a si prórpia por não ter levado nem telemóvel nem dinheiro...
Dinheiro.
O ritmo cardíaco da rapariga acelarou a mil à hora e sentiu o seu estômago vazio a contorcer-se. Como é que ia pagar o quadro ao senhor? Tudo parecia correr-lhe mal naquele dia, mas ao mesmo tempo sentia-se extremamente bem com o homem desconhecido e não dava conta das coisas que aconteciam à sua volta.
Uma onda de calor subiu-lhe pelo corpo ao mesmo tempo que se lembrava do estado em que a sua família devia estar naquele momento. Olhou para o velho entertido com o seu poster. Mas o que raio estou eu aqui a fazer? Pensava ela para si milhões de vezes sem encontrar resposta. O que? O homem olhou para ela e a sua expressão tornou-se séria e preocupada. Largou imediatamente as ferramentas que caíram mesmo junto aos seus pés e correu ao encontro de Joana. Os seus joelhos tombaram no chão como dois pesos de cem quilos e com as duas mãos levantou o rosto descaído de Joana.
- Joana, sentes-te bem? Estás tão pálida...
Os dois olhos cor de oceano tentam desesperadamente encontrar os olhos vazios e assustados de Joana. A sensação de calor trasnforma-se rapidamente num arrepio pela espinha acima fazendo-a estremecer. Joana percebeu por fim que se estava a desfalecer, mas era tarde de mais.

***
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- Tenta este. – pediu Sofia trazendo mais uma lista telefónica nas mãos. – É do ex. namorado dela.
Carla pega no livro e marca o número nas teclas do telefone. Esperançosa que alguém desse notícias de Joana, Carla ouviu uma voz do outro lado da linha:
- Está?
- Boa tarde. Daqui fala Carla Morais, a mãe da Joana.
- Boa tarde, como está?
- Hum... bem, obrigada. A Joana anda desaparecida desde hoje de manhã e eu desejava saber se sabe alguma coisa dela ou de alguém com quem ela possa estar.
- Não. Já não falo com ela à algum tempo. Tente telefonar para as amigas. – sujere o rapaz.
- Já o fiz e ninguém sabe dela.
- Peço imensas desculpas, mas não a posso ajudar. A única coisa que posso fazer é tentar alguns contactos de amigos dela ou conhecidos...
- Sim, agradecia.
- Então se houver notícias eu contacto-a, pode ser?
- Claro! E eu vou ter o cuidado de fazer o mesmo. Então uma boa tarde e obrigada.
- Obrigada eu por me avisar. Boa tarde.
Carla pousa o auscultador e suspira. Sofia olha para ela procurando algum sinal na sua expressão.
- Nada?
- Nada.
***
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Joana fora deitada sobre uma cama num quarto escuro. Depois de pousar o copo de água na mesa de cabeceira o velho teve o cuidado em abrir a janela de modo a arejar um pouco o espaço. Pega em duas almofadas e coloca-as por baixo da rapariga adormecida de modo a que ficasse mais confortável. Suavemente passou a sua mão pelo rosto de Joana.
- Não pode ser... – murmurou ele.
O coração do pobre homem quase parou naquele preciso momento. A pele de Joana estava gelada como pedra. Ele pega na sua mão e vê a pulsação. Muito fraca.
- Oh, meu Deus! Joana...

***

- Olha, achas boa ideia estarmos a fazer isto? No meio da confusão da rua não a vamos encontrar! Se ela estivesse aqui já tinha voltado para casa à mais tempo! – disse Sofia enquanto seguia a mãe apressada pelas ruas do grande Porto.
- Não sei... ela tem de estar em algum lado!
Sofia receava o pior. Tudo o que queria naquele momento era ver novamente a cara da irmã, mas lá no fundo era bem capaz de pensar no que podia estar a acontecer Joana. Carla obviamente pensava o mesmo, mas achava cruel de mais acontecer mais uma desgraça daquelas na família. Foi doloroso o suficiente a morte do marido. Não ia sopurtar mais uma angústia daquelas.
- Mãe, não te assustes com o que te vou dizer mas... acho que era melhor telefonares para os hospitais da zona.

***

O desgraçado homem estava em pânico. Não sabia o que fazer. Podia ser tudo uma questão de segundos. Joana podia estar em sério perigo. Mas podia ser apenas um desmaio. Ele não queria arriscar fazer algo que se viesse a arrepender... Mas não podia deixa-la morrer. Não podia...
- Não posso, minha querida.
Aproxima a sua cara à dela. Receoso. Conseguia ouvir a sua respiração extremamente débil. Levou as duas mãos ao rosto da moça e delicadamente pressionou o nariz. Mais uma questão de milímetros e era capaz de sentir o seu cheiro e ver a sua vida a andar para trás. Não podia descaír-se agora. Tinha de fazer o que estava certo, pela segurança dela. Fechou os olhos e com força e inspirou fundo. Ambos os lábios se tocaram ternemente.